A comunidade cativa da Fazenda Santa Eufrasia

A Fazenda Santa Eufrásia foi palco, no século XIX, do que hoje é considerado crime contra a humanidade: a escravização de africanos, muitos sequestrados ainda crianças. Estima-se que cerca de um milhão de africanos sobreviventes da travessia tenham subido a serra para o trabalho forçado nas fazendas de café do Vale do Paraíba.

Representante exemplar do complexo de produção e dominação organizado para viabilizar a exportação de café, a Santa Eufrásia era uma fazenda de grande porte: de acordo com o inventário de seu proprietário, ali havia 162 escravizados em 1880. Os africanos e seus descendentes participaram com seu trabalho forçado de todas as etapas da construção da riqueza gerada pelo café: nas plantações, na colheita, na secagem, no armazenamento, nos serviços domésticos e no transporte.

Frente à violência da dominação, sempre buscaram transformar as péssimas condições de vida e trabalho a partir da organização de uma comunidade que viabilizava a luta diária pela conquista da alforria e pelo direito de acesso à roça, à organização de famílias, às comemorações de seus santos e antepassados.

Na década de 1880, período de mobilização pela abolição da escravidão no Brasil, o Vale do Café estremeceu com as insubordinações e ameaças de fugas dos escravizados. Em 13 de maio de 1888, dia da abolição, ouviram-se batuques e jongos por todas as fazendas da região.

Se os velhos casarões ainda exibem parte desse passado escravista, as residências dos escravizados, as senzalas, situadas em local próximo à casa dos senhores e ao terreiro para a secagem de café, em geral não foram preservadas. Os descendentes de africanos legaram para as gerações futuras um patrimônio cultural valioso – expresso em versos, jongos e sambas – e muitas histórias de luta e resistência que marcam a trajetória e o orgulho de suas famílias em toda a região.

Para outros locais de memória da História dos descendentes de africanos no Vale do Paraíba, recomenda-se a visita aos seguintes locais:
– Memorial Manoel Congo em Vassouras (Rua da Pedreira, s/nº, no Centro Histórico de
Vassouras)
– Quilombo São Jose da Serra – Valença (Associação do Quilombo, contato com Toninho
Canecão, toninhocanecao@yahoo.com.br)
– Memorial do Jongo em Pinheiral (CREASF – Centro de Referência de Estudo Afro do Sul
Fluminense – contato com Fatinha, creasfjongopinheiral@ig.com.br)

A comunidade cativa da Fazenda Santa Eufrásia conforme registro do inventário de Ezequiel de Araújo Padilha, proprietário da fazenda

De acordo com o inventário, ali viviam 162 escravizados em 1880. Quarenta e seis deles tinham nascido no continente africano. O inventariante não chega a se preocupar em esconder a flagrante ilegalidade da sua escravização. Os africanos estão assinalados no inventário como “de nação” ou com a indicação mais precisa da região da qual foram traficados, principalmente “Benguela” e “Congo”.

Filhos e netos dos escravizados foram registrados no inventário, o que nos permite conhecer as famílias que formaram na sua experiência do cativeiro. Os nascidos livres após a Lei de 1871 – os ingênuos – estavam obrigados a prestar serviços gratuitos ao senhor de suas mães até completar 18 anos.

Como dever de memória e homenagem aos que integraram a comunidade de senzala da Fazenda Santa Eufrásia, em 1880, encontram-se assinalados abaixo todos os seus nomes. Os fugitivos das senzalas da Santa Eufrásia também estão registrados.

José Benguela (66) e Josepha Benguela (66), pai e mãe de Prigida (28) e avós dos filhos dela, ingênuos, Anastácio (0) e Aceto (3), também pai e mãe de Emiliana (25), e avós dos filhos dela, Jeronimo (15) e a ingênua Firmina (3). Izidoro (52), de nação, quebrado e Generoza (50), de nação, doente e a filha de ambos, Marcelina (21). Benedito Monjola (56) e Camila (40), crioula, e a filha de ambos, ingênua, de nome Izidora (7). Custódio (46), de nação, Geralda (44), crioula e os filhos de ambos, Paula (25) e Manoel (27), quebrado. Casemiro (50), de nação e Carolina (46), de nação, casal sem filhos registrados. Prudêncio (56), de nação e Domingas (42), de nação e as filhas de ambos, Prudência (11), crioula e a ingênua Theodora (8). Zacharias (56), de nação, Florinda (48), de nação e o filho de ambos, João (24), crioulo. Joanna (44), de nação e seus filhos Gabriela (20), crioula, Domingos (12) crioulo, a ingênua Cezaria (3), Firmo (28), crioulo e Georgina (15), crioula. Firminana (52), parda, doméstica e suas filhas Maria (34) e sua neta, a ingênua Tiphania (3). Mathilde (40), de nação e sua filha Francisca (21), crioula. Constantina (27), parda, costureira. Cleta (70), de nação, mãe de Pulcheria (43), crioula, avó de Felícia (26) e bisavó de suas filhas ingênuas Nicolina (8) e Catharina (3), avó de Joana (23) e bisavó de sua filha, ingênua, Cândida (3). Esperança (50), crioula, lavadeira. Luiza (46), parda, costureira e seus filhos ingênuos Anna (3), Armando (0,5), Laura (6) e Lázaro (1). Marcolina (21), costureira. Dionizia (22), costureira, parda. Cezaria (18), mucama. Valenina (20), parda, mucama. Luiza (32), crioula e seus filhos João Baptista (15), Anta (17), Brozinho (12) e o ingênuo Vicente (1). Matthias (50), de nação e Romina (48), crioula e sua filha Florinda (29) e a neta ingênua Esthefania (2). Rosi Breves (69), de nação, e sua filha Cândida (20). Anna (56), parda, lavadeira e seus filhos Geremias (24), Braz (22), Emilia (19), Ignez (21), mucama e mãe do ingênuo Boaventura (4), neto de Anna. Marianna (51), de nação, doente de irizipela, mãe de Eliodora (20), Honorata (26), mucama, Benecdita (18) e Anastacia (29), doente. Rosa Mina (56), doente, seus filhos Felix (17) e Simplicia (22), mãe dos ingênuos Theothonia (6), Sebastião (4), Milburges (0,75), netos de Rosa Mina. Antonia (42), de nação, dua filha Cícera, 25 e sua neta ingênua Victoria (8). Innocencia, inválida e sua filha Paula (25). Annastacia Bengela (56) e seus filhos Zeferino (34), carreiro e Pedro (26). Maria Efigenia (29), defeituosa e seus filhos Joaquim, crioulo (12) e a ingênua Maria (8). Ambrosina Crioula (33) e seus filhos ingênuos Domingos (6) e Hermênia (3). Martiniana (55), sofrendo de moléstia incurável e seus filhos Sancho (35) e Henrique (20). Prospera (44), asmática, e seus filhos Bertholdo (16) e a ingênua Profiria (4). Epifania (29), parda, engomadeira e seus filhos ingênuos Pedro (2), Joanna (4), Porfiria (8). João Pequeno (49), de nação, fugido desde 1870. Josepha Crioula (42), Marianna Mina (50), cozinheira. Damiana Crioula (27), mucama.
Rosa (53), de nação. Catharina (60), de nação. Joaquina (61), de nação. Izabel Crioula (32). Rosa Velha (52), de nação. José Martins (42), de nação, capataz. Paulino (30), crioulo, pedreiro. Januário (70), de nação. Silverio (38), crioulo. Luiz (30), crioulo, pedreiro. Lucio (46), de nação. Alipio (sem idade declarada), de nação, cozinheiro. Diocleciano (40), crioulo. Adiodato (30), carreiro. Florencio (50), pedreiro. Evaristo Crioulo (40). Adão Crioulo (50). Epifanio (46). Paulo Crioulo (40), serralheiro. José Carlos (46), de nação. Elias (40), de nação, roceiro. Firmina Crioula (46). Belizario (38), de nação. Belizário (38), de nação. Alberto (40), pedreiro. Daniel (48), de nação. Pio (40), de nação. Benedcito (46), de nação. Antonio Congo (50), hortelão. Luiz Hespanhol (40), de nação. Melchiades (26), crioulo. João (40), crioulo de roça. Gaspar (45), de nação. Lauriana (39), de nação. Galdino (48), marceneiro. Francisco (46), de nação. Anselmo (49), de nação. Luiz Bnguella (49), de roça. Francisca Conga (46). Miguel (46), crioulo, carreiro. Matheos (29), crioulo. Elesbão (36), pardo, carpinteiro. Lucas (70), de nação. Eufrasia (50), de nação. Ramiro (45), crioulo. Clemente (36), crioulo. Nicolau (sem idade declarada). José (31), crioulo, faqueijador. Justino, pardo (sem idade declarada). Faustino (46), de nação. Eva (46), de nação.

 

Referências bibliográficas:
Hebe Mattos e Ana Lugão Rios, Memórias do Cativeiro: família, trabalho e cidadania no pós-abolição. Rio de Janeiro, Ed. Record, 2005.
Flavio Gomes, História de Quilombolas: mocambos e comunidades de senzalas no Rio de Janeiro, século XIX. São Paulo, Cia das Letras, 2006.
Ricardo Salles, E o vale era o escravo. Vassouras, século XIX. Senhores e escravos no coração do Império. Rio de Janeiro: Civilização. Brasileira, 2008.